Pressione "Enter" para passar para o conteúdo

Até sempre, Filipe

Perdemos o Filipe.

O Filipe era um idiota genuíno, no bom sentido da palavra. Das poucas pessoas que conheço neste mundo, o Filipe era uma das que mais admirava — e admiro, porra. Um ser humano daqueles que fazem falta ao mundo, o Filipe possuía uma espécie de aura a pairar sobre si com o efeito de íman para pessoas igualmente idiotas como ele — eu incluído, felizmente.

Homem possuidor de uma capacidade insana em fabricar ideias, o Filipe era uma espécie de âncora que aprendi a respeitar. Há muitos anos atrás, o Filipe — em parceria com outros idiotas — criou e alimentou um pequeno paraíso para pessoas como eu que, à altura, tinha a sede e o sonho de escrever. Meio a tropeçar dei com o Mais Opinião numa fase em que buscava um sítio para mostrar os meus textos e ideias estapafúrdias. Entrei em contacto com o Mais Opinião e quem me respondeu foi o Filipe. Cordial e electrizante ao mesmo tempo, mostrou uma personalidade que me cativou na hora. E passados alguns dias lá estava eu a escrever umas larachas para o Mais Opinião.

E que viagem foi essa que durou anos. E foram anos espectaculares que resultaram em encontros de cronistas a degustar francesinhas em Coimbra. Graças ao Mais Opinião, conheci pessoas extraordinárias que me inspiraram a escrever mais e melhor. Mas existia uma pessoa sempre ao leme, a comandar o barco de forma brilhante e com uma coolness capaz de provocar uma segurança interior a todos nós, cronistas amadores com uma sede de partilhar com o mundo as nossas ideias e opiniões.

Existiram fases menos boas, como em tudo nesta vida. Fases em que o pessimismo e falta de auto-estima tomaram conta de mim e foi aí, nesse momento, em que eu conheci o verdadeiro e enorme Filipe Vilarinho. Não consigo contar pelos dedos das mãos as vezes em que o Filipe interveio e içou-me de um poço profundo de onde eu nunca conseguiria sair sozinho. Ele esteve sempre lá, presente e pronto a fazer de mim uma melhor pessoa, mesmo que eu só o tenha percebido agora que o Filipe já partiu deste mundo.

Falávamos de muita coisa. E sobre qual seria o tema, o Filipe sabia o que dizia e fazia-o com uma convicção de criar inveja e de nos colocar a questionar sobre tudo o que anteriormente tínhamos como uma certeza absoluta. Era uma pessoa culta que sabia um bocadinho sobre tudo e isso era o suficiente para termos conversas longas e produtivas que me deixava sempre animado e com a certeza de que, efectivamente, a vida vale mesmo a pena ser vivida porque existem pessoas assim, com a consciência e clarividência que o Filipe demonstrava e possuía, de facto.

O Filipe era uma pessoa única. Daquelas que todos nós devemos conhecer e privar nesta vida. Se esta vida faz sentido, uma clara demonstração é o de existirem pessoas como o Filipe, que tinha a capacidade de tornar todos à sua volta pessoas bastante melhores.

Tenho algumas recordações das inúmeras conversas com o Filipe, mas a frase que mais ecoa no meu coração era quando ele dizia “nisso somos iguais!”. Frase essa que me fazia um bem interior que sinto só agora entender o poder que ela tinha em mim, visto que não voltarei a ter o prazer de a ver repetida pelo Filipe.

Perdemos um dos bons. 

Perdemos um homem como poucos.

As mais sinceras condolências à família.

Até um dia, ENORME Filipe Vilarinho, foi um prazer.

Seja o/a primeiro/a a comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.