(Agredido)
“Que mal fiz eu? Por que é que ele me está a fazer isto? Eu não quero o mal de ninguém, apenas queria ter amigos. Mas ninguém me compreende. Por que raio está a bater-me? Eu não fiz mal nenhum. Eu nem olhei para ele. O que será que ele quer de mim? Eu não sei ser mais do que sou. Como faço para ser melhor? Para ele não me bater? Para que falem comigo. Como faço para ter amigos? Mas será que existem amigos verdadeiros. Todos os que tenho fazem-me mal. Gozam comigo. Batem-me e até me roubam o lanche. Será que eles não entendem que preciso de comer para ter energia, que sou igual a eles? Por que me fazem isto? Por que é que estão todos a ver e ninguém faz nada?! Ajudem-me! Ele está a bater-me! Ele está a fazer-me mal e vocês não fazem nada, não dizem nada? Que pessoas são vocês? Pára de me bater, por favor! Já chega! Estás a magoar-me! Eu não pedi nada disto! Eu só quero ter amigos. Eu… sinto-me tão sozinho neste momento. Estão aqui tantas pessoas ao meu redor e ninguém me ajuda. Estou sozinho. O que estou aqui a fazer? Não sirvo para nada! Não sou nada. Sou lixo. Não sei defender-me, não sei fazer amigos. O que sou eu? O que faço aqui neste mundo? Por que razão existo? Não faz sentido. Nada faz sentido. Pára de me bater! Já chega. Deixa-me em paz. Eu só quero estar sozinho. Não quero nada nem ninguém. O mundo não presta. Eu não presto. Eu só queria ter amigos e ao invés disso estão a bater-me, a rirem-se de mim… Porquê? Não compreendo. Não fiz nada para merecer isto…”
(Agressor)
“Tenho de ser assim. Não escolhi isto, mas sou obrigado. Tenho de mostrar força, não fraqueza. Não posso ser fraco. Se eu fizer isto, todos vão olhar para mim de forma diferente. Vou ter poder. Todos nesta escola vão ter medo de mim e aí eu posso ser quem devo ser. Forte, mau e violento. Eu nem queria ser assim, preferia jogar à bola ou jogar PlayStation, mas tenho de mostrar que sou forte! Eu nem queria bater-lhe, mas estão todos a ver e, por isso, tenho de mostrar que sou o mais forte! Não posso vacilar agora. Mas… por que raio ele não responde. Estou a bater-lhe e ele nem se defende. Os fortes não são assim. Foi o que o meu pai disse. Tenho de ser forte para que ele note que eu estou aqui, que existo. Se este rapaz se queixar, pode ser que o meu pai fique a saber que tem um filho forte e dominante. Todos vão ter medo de mim nesta escola. E o meu pai vai ficar contente, pois eu não sou fraco. E ele não quer um filho fraco, disso tenho a certeza. Assim, pode ser que a minha mãe me dê atenção. Pode ser que me dê mais importância. Ela não quer saber de mim. Aliás, eles não querem saber de mim. Mas se eu mostrar que sou forte, pode ser que assim olhem para mim orgulhosos. Desculpa, rapaz, mas vou ter de te bater. Preferia jogar à bola, mas agora tenho mesmo de te bater para que os meus pais se importem com a minha existência. Pode ser que assim até me comprem mais coisas. Se eu não fizer isto é sinal que não presto para mais nada. É como os meus pais me dizem, que não presto para nada e que só vim a este mundo para os chatear. Mas assim, não. Assim sou forte. Assim eles vão finalmente gostar de mim…”
Antes de julgarmos. Antes de decidirmos apontar prontamente o dedo ao agressor ou ao agredido, devemos ponderar. Reflectir e tentar perceber os motivos que levam a acções tão erróneas. Agressões ou bullying são acções absurdas numa escola. As crianças devem ser felizes, despreocupadas e ocupadas com a aprendizagem. Ao invés, são cada vez mais os casos de crianças vítimas de bullying nas escolas. Actualmente, ser-se um bully é sinal de poder e popularidade. Mostrar força e imponência através de agressões ou intimidações a outros colegas é sinónimo de respeito entre os seus pares. Mas, claro, isso tem outra explicação. E podem ter vários motivos, mas geralmente o principal deve-se ao papel dos pais na vida do seu filho. Existem pais que não se preocupam, que não dão importância aos filhos. E isso acaba por ser um rastilho para algo negativo — mais propriamente em relação ao comportamento escolar. Muitos miúdos, naturalmente sem possuírem a maturidade necessária, optam por chamar à atenção dos pais com actos mais agressivos. E apenas para que os pais notem que eles existem e que eles precisam dos seus pais para os guiar na vida. São crianças psicologicamente afectadas pela falta de carinho, afecto e, mais grave que tudo, de uma adequada educação.
É costume dizer-se que os filhos são o reflexo dos pais. Nestas situações em que existem agressões e bullying, é urgente começar pela raiz do problema — o ambiente familiar. Talvez assim, algo se possa fazer para diminuir os casos de agressões nas escolas.
Ou talvez eu apenas queira viver num mundo idílico onde tudo seria perfeito — o que nunca seria o caso. Existem muitas coisas para melhorar na Educação em Portugal, é certo. Então, não seria uma boa ideia principiar não pelas crianças, mas sim pelos seus pais?
Fica a proposta…







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