Pressione "Enter" para passar para o conteúdo

Casa

O mundo tem a capacidade de nos atormentar a vida todos os dias. Sendo de que forma for, existem sempre contrariedades que surgem quando menos esperamos. A maldade que impera na humanidade parece cada vez mais tomar conta de todo o quotidiano e bate-nos à porta todos os dias sem ser convidado. E perante tudo isto, existe um sítio onde a malvadez parece não conseguir proliferar. Uma espécie de barreira intransponível que serve de escudo para todos os males do mundo. Quando entramos na porta da nossa casa, o mundo parece deixar de existir da mesma forma e sentimos um conforto que não conseguimos explicar. Como se, ao transpor a porta de casa, nos fizesse entrar numa nova dimensão paralela onde somos reis e rainhas, onde o mal não consegue prevalecer. 

A nossa casa é o nosso santuário, o nosso bunker privado onde nada nem ninguém nos consegue fazer mal. Só lá entra quem permitimos entrar. E é em casa que conseguimos ser aquilo que verdadeiramente somos, sem máscaras e sem a necessidade de fazermos fretes só para parecer bem e transmitir a ideia de que somos excelentes pessoas. Em casa podemos ser uns filhos da mãe, uns sacanas do pior e, ao mesmo, iludirmo-nos de que somos uns seres humanos da melhor casta que já existiu. Em casa somos comandantes, pilotos e condutores da nossa vida — ao contrário do que acontece quando batemos com a porta e enfrentamos o mundo lá fora. 

Quando adoecemos, só queremos ficar em casa, no nosso mundo, no nosso aconchego onde ninguém nos poderá afectar. Quando sofremos um desamor, enfiamo-nos em casa e devoramos todos os filmes e séries românticas da Netflix. E até quando assistimos ao horror que prolifera nos canais noticiosos sobre a guerra, é em casa que sentimos aquele conforto especial e de proteção. Sentimo-nos super-heróis em casa. Somos Hércules, Xena, a princesa guerreira ou o Macgyver. Somos o Inspector Gadget ou a Mulher-maravilha. Somos uma mistura de tudo e uma panóplia de nada. Somos os inventores de um mundo melhor e os vilões que destroem planetas. 

Em casa somos senhores de nós próprios, mas também conseguimos ser os seres mais estranhos à face da Terra. Podemos andar vestidos de igual forma como viemos ao mundo, ou parecer que estamos no Polo Norte. Podemos rir sozinhos e para uma parede branca só porque sim, ou simplesmente desatar a chorar como se nos tivessem feito mal de mil e uma maneiras possíveis e imaginárias. Em casa podemos ser pintores, artistas plásticos e construtores de um mundo imaginário nosso, onde somos os seres mais felizes do mundo. Podemos realizar sonhos — ou apenas fingir que os estamos a viver, sem que ninguém leve a mal ou nos aponte o dedo. É em casa que construímos as nossas memórias e as arrumamos no local que só nós conhecemos dentro do nosso cérebro. 

Nesta vida, se não for em casa, onde é que poderíamos ser felizes? 

Seja o/a primeiro/a a comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.