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Saudades da palavra Amizade

Tenho saudades das amizades do antigamente. Tenho saudades do quão natural significava ter amizades sinceras e sem custos. O amigo em que confiávamos. O amigo em que podíamos descarregar as nossas mágoas, inseguranças e até, por vezes, as loucuras que nos passam pela cabeça todos os dias, sem que o mesmo nos apontasse o dedo ou nos indicasse a terapia como solução mais viável para as nossas idiossincrasias disparatadas a roçar a insanidade. Num tempo em que vivemos numa era digital, ter um amigo já não é o mesmo que ter uma amizade. 

Hoje os amigos surgem nas redes sociais. Antigamente, faziam-se amigos com uma simples troca de olhar, onde se percebia claramente que ambos se sentiam sincronizados com aquele momento. Nos idos tempos em que era adolescente, fazer amizades era quase como respirar. Num jogo de futebol, numa ida à praia ou mesmo usando a básica rotina de ir beber um café numa qualquer esplanada, faziam-se amigos com naturalidade e com a percepção de que não haveria ali nada de alarmante, de assustador ou mesmo alguns interesses absurdos que resultariam, mais tarde, em profunda mágoa e desdém. 

Hoje em dia, desconfiamos de tudo e de todos. Nunca sabemos com quem estamos a contar, quando damos a oportunidade de alguém ser nosso amigo. O principiar de uma amizade tem de começar com calma, com interesse múltiplo por algo ou alguém e, mais tarde, ir acalentando essa mesma união com trocas de ideias e de opiniões em concordância ou até em confronto. Hoje em dia, isso não existe. As amizades nos dias que correm, são alimentadas por falsidades e apropriações do espaço digital do outro. Eu sou amigo do amigo do amigo do meu amigo, porque ele é bué conhecido nas redes sociais e tem bué likes. A banalização da amizade, hoje em dia, transpõe a veracidade dos sentimentos que podemos sentir por outras pessoas. Não são amizades sinceras — são amizades alimentadas por interesse. 

Lembro-me dos tempos em que fazia amizades fora da era digital. Já lá vão uns aninhos. Eram bons tempos. Tempos de passeios de bicicleta, de jogar ao peão e aos berlindes e correr desenfreadamente pela rua dos meus pais a jogar à apanhada. Éramos putos felizes e amigos sinceros uns dos outros. Hoje estamos a transformar-nos em seres cansados e desconfiados do mundo que nos rodeia — o que nos faz perder a nossa identidade e a alegria da vida, um bocadinho a cada dia que passa. 

Tenho saudades. Deles — desses amigos verdadeiros que floresceram na minha vida. E de mim próprio, que todos os dias vou deixando o tempo levar-me aquilo que de mais precioso possuo: a minha verdadeira identidade. 

Tenho saudades. 

Muitas… 

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