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A questão da velhice precoce

Não existe fuga possível a algo que é tão rápido como natural de acontecer. A velhice, quando somos jovens hirtos e cheios de vigor, é uma coisa tão distante que nunca chega a atingir-nos de uma forma assustadora e tão vincada de quando somos adultos já cansados e inundados de responsabilidades que nos tiram o sono todas as noites. Mas é quando nos apercebemos que já não somos jovens que a idade tem a capacidade de nos atingir com mais violência. Os sinais surgem naturalmente sem que nos apercebamos de que eles estão lá com um único propósito existencial: o de avisar que, efectivamente, a vida está a extinguir-se lentamente e que já se está na fase da vida em que o melhor é começar a usar-se o velho ditado “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. 

É obvio que pode soar absurdo que, com 42 anos de idade, esteja já a pensar na velhice. Mas, de facto, o fim disto tudo é algo que me assusta e tem a capacidade de me atormentar os sonhos. Porque, infelizmente, os tais sinais já começam a surgir no meu dia-a-dia e só agora me apercebi da mensagem que eles tentam transmitir-me. Apesar de, interiormente, a ideia de ter 42 anos de idade ainda não me ter assentado de forma aceitável, a verdade é que exteriormente torna-me cada vez mais indubitável que estou a envelhecer a olhos vistos. 

Um dos primeiros sinais é a forma como outras pessoas nos tratam. Tudo se começa a encaixar — de uma negativa para mim, obviamente — quando pessoas mais jovens   passam a dirigir-se a mim na terceira pessoa do singular. Nas primeiras vezes em que  tratei pessoas mais jovens na segunda pessoa do singular e elas retrucaram com um “você”, o mundo pareceu-me fugir debaixo dos pés. Primeiro, senti-me insultado não pela forma como se dirigiram à minha pessoa, mas sim pelo pormenor de sentir que aquela pessoa estava a ser educada e respeitosa de uma forma exagerada. Não aprecio formalidades. Sou um simplista no que ao respeito por outros diz respeito (peço perdão pela redundância) e gosto que me tratem de igual forma como eu trato outras pessoas. 

Existem outros sinais que nos assombram os sonhos quando abordamos a questão da idade. E este é um dos sinais que mais me perturba — a falta de tempo para fazer tudo aquilo que sonhámos fazer. Quando se diz “o tempo voa”, de facto, o tempo voa mesmo a uma velocidade alucinante. E todos os objectivos e sonhos de vida começam a voar ao mesmo tempo que a idade quando nos apercebemos disso. Tenho medo de não conseguir ser aquilo que sempre quis ser. Tenho medo de não conseguir acompanhar a minha filha de 8 anos durante os melhores — e até os mais complicados — anos da sua vida. E tenho medo que a idade decida brindar-me com doenças assustadoras que me irão derrotar num ápice. Quando somos jovens, um sinal, uma borbulha, uma ferida, um desconforto, são apenas pequenas maleitas que passarão num par de dias. Quando já temos uma idade mais avançada, em que nos chocamos diariamente de manhã porque aquela pessoa que está à nossa frente no espelho não é a mesma que nós idealizamos na nossa cabeça, todas as maleitas são motivo de preocupação constante porque já não nos curamos à mesma velocidade de antes. 

A cada dia que passa o FIM está mais próximo. E a vivermos de forma tão stressada, em correrias desenfreadas e, por vezes, sem nexo, esse FIM estará ao virar da esquina quando menos esperamos. E o medo que sinto é transformado em pesadelos que me consomem de olhos abertos. Todos os dias, sem folgas ou feriados. 

Sinto-me velho e cansado aos 42 de idade. Serei o único a sentir-me assim?… 

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